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Aos 45 do segundo tempo, Lula corta imposto que ele mesmo criou

A taxa das blusinhas conseguiu algo raro em política fiscal: arrecadou menos do que antes de existir, derrubou a popularidade do governo e ainda afundou os Correios — estatal sem concorrente no segmento de encomendas internacionais de baixo valor. O prejuízo chegou à casa dos bilhões. Integrantes do governo apresentaram a suspensão do imposto como sensibilidade com o consumidor brasileiro. É uma leitura criativa para o que foi, nos fatos, uma retirada forçada por três indicadores simultâneos apontando na mesma direção.
O imposto que fez o governo perder em três frentes ao mesmo tempo
O raciocínio original era direto: taxar em 20% as compras internacionais de até US$ 50 geraria receita e protegeria o varejo nacional da concorrência de Shein, Shopee e similares. O efeito foi o oposto. As vendas nos sites estrangeiros despencaram, o volume de encomendas processado pelos Correios caiu junto e a receita da estatal afundou com ele. Uma empresa que já carregava o caixa pressionado perdeu, de uma vez, o fluxo que a taxa prometia transformar em vantagem competitiva.
Os números do prejuízo circularam nos bastidores por semanas antes de virar argumento público — e esse intervalo diz algo sobre quando, de fato, a decisão de recuar foi tomada.
Lula recua da taxa das blusinhas
A suspensão chegou sem revisão técnica anunciada, sem relatório de impacto divulgado, sem nenhuma proposta substituta para o varejo que o governo prometeu proteger. Lula recuou da taxa das blusinhas e a comunicação do Palácio tratou o episódio como capítulo encerrado. O timing não é aleatório: o horizonte de 2026 já organiza boa parte das decisões de mais um novo mandato, e uma taxa impopular entre consumidores de baixa e média renda é exatamente o tipo de passivo que estrategistas de campanha querem eliminar antes que o ciclo eleitoral comece a valer de verdade.
O governo ainda não explicou o que fará com os Correios.
Há algo perturbador na velocidade com que o mesmo governo que criou o imposto passou a descrevê-lo como problema herdado. Nenhum ministro errou, nenhuma projeção foi equivocada — a taxa simplesmente “não funcionou como esperado”, na formulação preferida dos bastidores. Na prática, funcionou exatamente como os críticos avisaram que funcionaria: reduziu o consumo sem gerar compensação fiscal, penalizou a estatal que deveria ser beneficiada e chegou ao eleitor como mais um custo inventado por Brasília.
A diferença entre admitir o erro e transformá-lo em narrativa de correção responsável é pequena em palavras. Em véspera de eleição, essa distância vale muito.
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